mayaracastro Brasil

// quem nunca?//

”- não deve ser a primeira vez que te falo da vontade louca de cometer loucuras!

- oi?

- oi. sabe do que eu tô falando?

- ?

- assim, eu não sei você, mas eu tenho momentos em que não caibo dentro de mim. é como se não bastassem as palavras, os pensamentos, as criações. é como se não bastassem as letras das músicas, os poemas, as imagens do dia a dia. É uma necessidade incontrolável de EXPRESSAR ao invés de ABSORVER, entende? não, não estou na tpm, mas estou naqueles dias que dá vontade de sair andando pela rua, ir pra qualquer lugar onde o caminho me leve, ir direto, sem desviar ou pensar pra onde, que se foda o instinto. Alou, Cadê a intensidade que te move à vida? Cadê a loucura - aquela que vem do âmago - em ser movida pelos próprios passos,  atraído pelos cheiros, cores, sabores, olhares, paixões, tempestades? Cadê a vontade de dançar feito louca na balada, só porque fez um dia lindo, ou não, só porque deu tudo errado e você PRECISA liberar a energia? alou? tem alguém me ouvindo? 

- em que lua estamos?”

// declarações de uma mente com lembranças//

mal acordei e hoje cedo já tinha uma pessoa para cuidar do meu bem estar no cantinho da casa que eu mais gosto de ficar: meu quarto. eliana é a pessoa que uma vez por semana aparece por aqui, com seu jeito destrambelhado como quem tenta não me acordar com o barulho, mas não consegue deixar de chamar atenção com seu sapato que calça 39, enquanto passa pelo corredor. 

claro que antes dela chegar, o articulador das palavras e decisões da casa já está a postos esperando acordarmos, com café na mesa - inclui-se frutas, pães e doces - e na cabeça, todas as questões já solucionadas. para ser sincera, antes de tudo em minha vida, vem ele. levanto, dou bom dia e sigo para a academia. meia hora de corrida diária me faz a cada dia descobrir uma nova mayara, muito mais disposta, mais cofiante e muito mais feliz. 

passados trinta minutos de suor constante, corpo pulsante e coração aberto para o mundo, corro pro banho - gelado - e saio, levando comigo aquele que às vezes parece uma múmia, de tão introvertido, mas que com um pouco de calma e gentileza, faz com que a simples troca de olhar abstraia os problemas do trânsito e das pessoas que seguem estressadas para o seu trabalho.

da metade do caminho em diante, o tempo é meu. faço daquele percurso um ritual onde é permitido música alta, performances toscas e paqueras aleatórias. reflexões me levam a crer que quem sabe se divertir consigo mesmo, nunca estará mal acompanhado. 

aí que eu percebo que gente do bem atrai gente do bem e “gente lesa”, também. marivalda é outro ser impressionante, que desde que conheci me recebe de coração aberto, sorriso no rosto e com as mãos sempre dispostas a cozinhar diferente pra mim. a baiana arretada conquistou todos daquela casa e, por ser a única, não só manda na comida como aprova e desaprova quem entra e sai daquela produtora. aliás, nunca vi gente querer estender expediente como naquele lugar. eu, inclusive. difícil vai ser quando acabar… ou não.

mas hoje, especialmente, precisei sair correndo porque marquei depilação. como sabia que chegaria atrasada, liguei e avisei. ao sair de lá, foi como se tivesse passado por uma sessão na terapia. miriam é impressionante de fofa. 

quem poderia não se sentir especial estando cercado de pessoas incríveis? hoje, especialmente, me senti muito privilegiada. por isso resolvi não só agradecer a família e amigos por estarem por perto, mas a todas as presenças que compõem o meu dia a dia, com as quais eu aprendo muito. 

obrigada por cuidarem tão bem de mim. 

// o poder da observação (enquanto estou presa no horário do rodízio)//

decidi por me ausentar da realidade. decidi, espontaneamente e sem determinar prazos, que desceria do salto pela vontade em analisar as situações diversas da vida e as reações das pessoas quando se relacionam umas com as outras.

há quase dois meses, mais ou menos, uma oportunidade de trabalho me permitiu fazer parte de uma caravana itinerante, que dorme cada dia em uma cidade e acorda cada hora com uma pessoa. creio que esse fato tenha colaborado para que neste tempo, eu tenha optado experienciar uma vida um pouco diferente. 

o mundo é feito de relações. família, amigos, colegas de trabalho, gente que cruzamos na rua, na balada, paixões momentâneas. é isso que rege a todos. e uma coisa é certa: as relações contribuem absolutamente para as nossas escolhas futuras. 

de certa forma, nesse momento estou me deixando levar às situações diversas, mas com muito cuidado para que as “influências” citadas acima, não tomem conta de mim. quem nunca fez algo por impulso porque um amigo pediu muito? é normal. vou mais a fundo, então: quem nunca achou que se não fizesse, estaria sendo egoísta?

dia desses, na meditação, ouvi que devemos pregar pelo egoísmo positivo - às vezes é bom ser antissocial, rejeitar a balada, chegar no trabalho e dar bom dia, sem esticar por educação.

então, me percebi assim. e com isso, passei a observar as relações em minha volta. uma amiga casou. outra virou noiva. outra terminou o namoro enquanto outra, levou chifre e não sabe o que faz. todas elas, sem exceção, estão em crise. 

desconsiderando as situações que envolvem os fatos, eu [solteira, livre, desimpedida e, digamos assim - no celibato por escolha] tenho notado quanta coisa envolve os relacionamentos: expectativas, ciúmes, julgamentos, discussões sem fim… sei que não estamos livres disso, mas, será mesmo que tudo - absolutamente TUDO - deve ser motivo para tal? essa é a impressão que eu tenho. 

outro dia, conversando com um amigo, falávamos sobre aparências. sobre viver pra isso, somente. isto é: casar na igreja porque é praxe, usar aliança porque manda a etiqueta, sonhar com as bodas de ouro porque é tradição e por aí vai… (não é à toa que a traição tem o poder de desestruturar autoestima de muitos e acabar com  contos de fadas casamentos)

Em um mundo onde o facebook é o lugar onde as pessoas passam a maior parte de seu tempo, não sou eu que vou discutir sobre a melhor forma de viver. mas venho aqui questionar: até onde a superficialidade das relações - movida à insegurança das pessoas e ao ego inflado - vai nos levar? até quando a importância de um relacionamento de verdade, onde o contato físico, o olhar nos olhos, o cafuné de cada dia, vai ser confundida com relações impessoais e cheias de expectativas vazias, como as do facebook? 

pra falar a verdade, estou tão bem assim, quieta, que, repenso a vontade de ter uma companhia mais íntima quando paro para refletir os conceitos deturpados que movem as pessoas hoje em dia. 

busco um mundo menos desgastante. em todos os sentidos.

simples assim

simples assim

// sozinha e muito bem acompanhada//

qual a linha tênue, o equilíbrio se é que ele existe, entre a profissão que escolhi que me coloca a disposição de tudo e todos a qualquer momento, que me oferece um prato cheio de truques para lidar com diferentes realidades, mas que, num mundo de relações breves, me distancia da minha própria intimidade? 

segunda-feira, dia de organizar a bagunça.  

// quando me olho no espelho,//

me vem a sensação de esgotamento e vontade de vomitar

mas não é pra passar. não é pra clarear.

é pra aprofundar.

voltar algumas páginas e retomar princípios.

Viver relações de verdade,

viver as relações em sua intimidade,

afastando anseios e encantamentos.

aproveitando sua intensidade, 

sendo ela doce ou amarga.

tenho tudo o que peço e sou muito grata

mas sinto que minhas relações são nada mais que breves passagens 

e que me falta convivência.

sou desapegada,

gosto de permitir que a energia flua,

meu espírito é libertário.

nunca me apeguei à brigas

nunca levei rancor pra casa.

Mas hoje reflito 

não sobre aquilo que aprendi sendo assim,

mas o que deixei de aprender.

trocar com as pessoas é bom,

ter curiosidade é uma qualidade que permite diferentes trocas e descobertas,

entre humores e reações. 

mas só expandir o mapa não significa nada.

a quantidade das relações não descreve a qualidade delas.

quero menos,

quero aos poucos,

quero um de cada vez,

começando por aprender a mergulhar em mim mesma.

// me contesto //

Melhor aquele que vai com os outros e experimenta,

do que aquele que ordena os rumos.

Este, sabe julgar, mas não vive as possibilidades.

Aquele, procura na liberdade, respostas.

É tão mais fácil aceitar, do que reivindicar.

Mas,

Quanto mais livre me vejo, mais apegada quero estar.

Quanto mais apegada estou, mais livre desejo ser. 

// Rumo a algum lugar//

um quarto de hotel

uma tv no mudo

uma mente cheia de pensamentos…

hoje, aqui

amanhã, ali

só permito que uma coisa me direcione:

a liberdade

não sou responsável pelos meus sonhos

eles é que são

não sou responsável pelos meus atos

eles é que também são.

vivo para me permitir

me permito para viver

e a troca flui naturalmente entre o doar e receber. 

hoje, aqui, 

amanhã, ali

cruzando olhares,

personalidades,

ritmos,

e sonhos opostos,

que se direcionam a um único caminho:

o de si próprio.

Tornava-me inteiro. minha percepção tinha coerência. Eu tinha visões de ordem. Sua força compulsiva era tão intensa, sua nitidez tão real e sua complexidade tão vasta que não consegui explicá-las satisfatoriamente para mim. Afirmar que foram sonhos vividos ou até mesmo alucinações não diz nada que esclareça sua natureza. Castaneda. 

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